Ao mestre com carinho

Eduardo Nascimento, o “Cabo Verde”. Foto: Leila Blass

Os anos se passam, mas as lembranças ficam para sempre. Hoje irei relembrar a historia do meu mestre, que me ensinou muita coisa do mundo do samba. Vou falar do grande embaixador e cidadão do samba paulistano, Eduardo Nascimento, mais conhecido como “Cabo Verde”, o maior ritualista em batistério no Carnaval paulistano.

Ele foi um grande sambista, um baluarte, que nasceu ali no bairro da Casa Verde, em SP, e logo começou a dar seus passos no samba. Iniciou no Morro da Casa Verde, mas logo sua paixão seria o Camisa Verde e Branco, pelo qual se tornou ‘Embaixador do Samba’.

Nos anos 70, passou um tempo no Rio de Janeiro, onde conviveu com grandes nomes do samba brasileiro, como Cartola, Dona Zica, Dona Neuma, Delegado, Mocinha e Natal, esse último, mestre ficou hospedado em sua casa, aprendeu muito com o Carnaval carioca e trouxe muita coisa para SP.

Logo em seguida, foi para Santos, onde conheceu seu grande mestre, que ensinou tudo a ele sobre batismo de escola de samba, o grande J.Muniz o Marechal do samba santista, a maior autoridade do samba da baixada santista e uma das maiores do Brasil, que logo depois eu tive a honra de conhecê-lo também, ele e seu filho, Jadir Muniz Jr, que hoje, somos grandes amigos.

Quando retornou para SP, começou o ritual de batismo na escolas paulistanas. Algumas já eram batizadas por outras agremiações do Rio e de Santos, mas o ritual que ele trouxera de Santos com o aprendizado de seu mestre, J.Muniz, era diferente de todos os outros que nos vimos, pois este sim é o verdadeiro batismo que se realiza nas escolas de samba, buscando, lá embaixo, as raízes. E logo, aqui ele ensinou seus discípulos a realizar os batizados.

Mas alguns destes discípulos infelizmente não quiseram aprender da maneira correta, e hoje vimos algumas destas pessoas realizando batizados totalmente diferentes do tradicional.

Vejo alguns usando bacias em rituais, jogando o pavilhão para o alto, tomando o champanhe na mão, não trazendo a roseta.

Eu fui um de seus discípulos, e até hoje carrego a tradição e realizo o ritual da maneira correta, fazendo da forma que aprendi, tendo os agdas, manjericão, amaçi, arruda, champanhe, água, bolo, rosas, castiçais, pipoca, velas, pavilhão virgem, certificado, livro de ata, e o texto, no qual fazemos a leitura do batistério e mencionamos sempre o grande mestre J.Muniz de santos.

Não podendo faltar as baianas, os harmonias, a escola madrinha, a homenagem, as pessoas mais antigas da escola, autoridades do samba e do mundo, escolas convidadas…

Meu mestre Eduardo Nascimento foi o ritualista que mais realizou batizados no Carnaval paulistano, só pelo Camisa Verde e Branco foram quase 40 batizados, sem contar escolas do interior tendo outras madrinhas.

Tive a honra de, junto a ele, fazer os batizados da Unidos da Fiel de Itaquá, tendo como madrinha a Unidos de Vila Maria, a Pérola Negra de Itaquá, tendo como madrinha a Pérola Negra de SP, a Velha Guarda da X-9 Paulistana, tendo como madrinha a Velha Guarda da Vila Maria, a Velha Guarda da Tom Maior, tendo como madrinha a Velha Guarda da Vila Isabel, do Rio de Janeiro, o batizado do Acadêmicos de Casa Verde, tendo como madrinha a Águia de Ouro.

Mas seu grande feito foi ter realizado a confirmação de batismo do Salgueiro no Rio, tenho como madrinha a Mangueira, o qual, na época, a presidente Regina Celi se emocionou ao lado de Laíla, quando viu o ritual ali sendo realizado, bem diferente de todos aqueles que eles tinham visto.

Juntos também, realizamos alguns julgamentos em diversas cidades pelo interior de SP, e foi através dele que conheci muitas pessoas no mundo do samba, como o finado Roberto do Camisa, a finada mãe Cleuza, entre outros.

No ano de 2010 se tornou ‘Cidadão do Samba Paulistano’, fazendo parte da Corte do Carnaval daquele ano.

Hoje, dedico este texto a você, meu grande amigo e mestre Eduardo Nascimento (Cabo Verde), que nos deixou no ano de 2017.

Saudades, meu amigo.

Comendador Rilson