ARROZ DE HAUÇÁ – Comida para o Corpo e a Alma

O Arroz de Hauçá, símbolo de resistência e luta, alimenta nosso corpo e nossa alma!

“Resgatai-nos desta cidade cujo povo é opressor”, dizia o fragmento escrito em árabe encontrado dentro de um amuleto confiscado pelas forças de repressão. Era o dia 25 de janeiro de 1835 na São Salvador da Bahia de Todos os Santos e teria sido um dia de comemorações na Colina Sagrada, festejando Nossa Senhora da Guia e o Senhor do Bonfim. Mas, para aqueles que portavam os amuletos confiscados (uma bolsinha de mandinga, feita de couro, contendo escritos com pedidos para Alá de proteção contra as armas inimigas) e protagonizaram uma das mais importantes revoltas de escravizados de nossa história, era a celebração do Laylat al-Qadr (A Noite do Destino), uma das comemorações islâmicas que precedem o fim do mês sagrado do Ramadã.
A Revolta dos Malês, como ficou conhecido aquele longo dia de luta contra a opressão e pela liberdade, faz parte de um ciclo de rebeliões contra a escravidão ocorridos nos anos 1807, 1809, 1814, 1815, 1816, 1826, 1827, 1828, 1830 e 1835, que contribuíram de forma fundamental para o enfraquecimento dos mais de 300 anos de sistema escravocrata no Brasil. Ela foi travada por mais de mil homens e mulheres escravizados e libertos, na sua imensa maioria muçulmanos, de diversos grupos étnicos como os Hauçás e os Yorubás.
Esses grupos de africanos muçulmanos, chamados indistintamente de Malês, eram referenciados pelos Hauçás, possivelmente o primeiro grupo de escravizados dessa religião a ser traficado para o Brasil. Identificados pelos documentos da época como altivos, alfabetizados em árabe e bilíngües, eram numerosos na Bahia, mas também presentes em Pernambuco, Alagoas e Rio de Janeiro.
O predomínio dos Hauçás no comando dos movimentos de luta contra a escravidão e sua reconhecida grande resistência à imposição do catolicismo sobre sua religião de origem, fizeram deles os alvos maiores da repressão. Após a derrota da Revolta de 1835, com prisões, sentenças e castigos brutais, condenações à morte e deportações, buscou-se aniquilar sua influência sobre os outros escravizados e libertos. Seus cultos foram desestruturados e sua presença cultural deixou de ocupar o espaço de visibilidade que detinha.
Contudo, essa presença cultural nunca desapareceu integralmente, estando ainda presente em muitos aspectos do que chamamos hoje de Cultura Afro-baiana, e para além dela, como o uso de patuás e amuletos protetores, a presença de adereços e elementos que compõem os trajes típicos das baianas e os trajes rituais de Religiões de Matriz Africana, o uso dos abadás típicos, expressões e práticas do cotidiano, pratos típicos da Culinária Baiana, entre outras manifestações.
Nesse último campo, o gastronômico, a Cultura Hauçá (ou Malê) proporcionou influências afro-muçulmanas em muitos pratos de enorme valor cultural como, por exemplo, o Acarajé e o Abará (relacionados com o Acará e o Maimae, respectivamente), e até o Caruru, que assim como os anteriores, tem origem no Norte da Nigéria. Mas é outro prato, também delicioso, que marca e relembra a presença desses valorosos guerreiros em nossa História, uma vez que leva seu nome: o Arroz de Hauçá.
Arroz de Hauçá é um prato feito com arroz no leite de coco, carne seca puxada na cebola, molho de camarão seco, o divino azeite de dendê, sal, pimenta e coentro. Hoje ele pode ser servido em uma travessa, de onde os comensais retirarão sua fatia, ou, o que é mais comum, em pratos individuais. No passado, seguindo os costumes muçulmanos, era sempre um prato coletivo, devendo ser comido com a mão direita (sem uso de talheres), com os comensais descalços e sentados no chão, circundando o prato.
O Arroz de Hauçá é um patrimônio da nossa Cultura, agregando ao sabor inigualável oferecido pelos seletos ingredientes (entre os quais, os mais típicos da culinária afro-brasileira – azeite de dendê, leite de coco, camarão, pimenta, coentro) muitos outros elementos afetivos, culturais e históricos.
Ele nos faz lembrar, com orgulho, de todos aqueles homens e mulheres que viveram e tombaram na luta contra a escravidão. Nos oferece a certeza de que suas lutas não foram em vão. Nos fortalece e amplia nossa coragem para as lutas que ainda temos que travar.

INGREDIENTES

1 kg de arroz branco
2,5 litros de leite de coco
30 g de alho
300 g de cebola
Sal a gosto
Pimenta do reino a gosto
50 ml de óleo de soja
25 g de coentro
25 ml de azeite de dendê
100 ml de azeite de oliva
2 unidades de pimenta dedo de moça
500 g de camarão seco
1,5 kg de carne de sol.

MODO DE PREPARO
Numa panela adicione o arroz, aos poucos coloque a àgua, o leite de coco, sempre mexendo.
Cozinhe numa panela destampada.
Deixe o arroz ficar bem ligado.
Frite a carne do sol com. O oleo e reserve.
Para o molho refogue a cebola, o alho, um fio de azeite de dendê.
Acrescente em seguida a pimenta picada e o coentro.
Refogue por uns minutos e logo coloque o camarão seco. Mexa e deixe pegar gosto.
Acrescente agora o leite de coco. mistura bem. Verifique o sal e pimenta do reino. Deixe apurar caldo.
Sirva o arroz com o molho de camarão seco por cima e a carne do sol na lateral.

Artigo de

Marcelo Reis