Documento Marco Aurélio Jangada – “Seu sobrenome é samba” – 3ª Parte

“Conheça a história deste que navegou por grandes mares até chegar ao seu porto seguro”

Acervo Pessoal

São Paulo, que amanhece trabalhando

São Paulo que não pode amanhecer

Porque durante a noite, paulista vai pensando

Nas coisas que de dia vai fazer
Sinfonia Paulistana  – Billy Blanco

Amanhece ao som de uma viola cancioneira, uma São Paulo com seus vitrais coloridos. as ruas do centro pulsam como veias que alimentam o grande coração: A Praça da Sé.
Neste emaranhado de gente e fumaça, ele que fora abençoado pelas águas da baía de guanabara começa a se render a novos horizontes e caminhos.O Carioca enraizado em São Paulo, Marco Aurélio Barradon praticamente começava a se despir de partes de seu nome e a tatuar o Jangada entre as quebradas do mundaréu. 
A sua alcunha começa a se misturar e vagar junto a dezenas de lantejoulas que ainda estavam a saracotear pelos ares entre o vale do anhangabaú, avenida São João e Avenida Tiradentes.
Claro que em seu coração, o mapa da cidade começa a ser tatuado, pouco a pouco, pedaço por pedaço.
Com sua personalidade forte logo o descritivo do brasão desta inovadora metrópole: NON DVCOR, DVCO (Não sou conduzido, conduzo), seria uma marca em sua personalidade,exatamente assim, Jangada foi conduzindo parte da sua história e a melhor maneira para relatar entender a sua personalidade, será através de quem ao seu lado conviveu:
Algum tempo decorrido

A avenida era o palco ideal

De folguedo colorido

Carnaval!
Samba Enredo de 1975 – NO ALTO DO CAAGUAÇU – AVENIDA PAULISTA ANTES E DEPOIS Compositor: Jangada
 
O Jovem Heverton Paulo Leite almeida, conhecido como Tuta conviveu com Jangada na década de 70 na Morada do samba e nos deu o seu depoimento:

O Jangada era um poeta, eu sempre o observava, muitas vezes ele tinha um semblante fechado.
Vivia dentro da secretaria da Mocidade Alegre datilografando alguns documentos ou textos, eu ficava sempre próximo a ele e esperava ele pedir para buscar Leite gelado na padaria para ficar com os trocados, rs! (nesta época, Jangada apresentava indícios de problemas estomacais).
Muitas vezes ele e Plínio Marcos,arranjavam apresentações para nós ritmistas, ele na minha opinião, fora um dos compositores mais importantes ao lado de Silvio Modesto na escola na década de 70.
Nas reuniões muita vezes ele gritava, tinha o pavio curto, era muito bravo, porém muito inteligente!
Ao Meu ver, Jangada e Armando da Mangueira junto de outros grandes nomes é que mexiam literalmente com o Carnaval de São Paulo”.

A sinceridade no qual se expressava, trouxe histórias marcantes como a descrita abaixo por Osvaldinho Babão, grande sambista com ligação afetuosa a diversas agremiações, ele também conviveu por um longo período ao lado do amigo Jangada:

Lisonjeado por deixar meu relato neste Documento Marco Aurélio Jangada, que com certeza é o reconhecimento público a este Sambista, Poeta e Jornalista.

Costumo dizer que faço parte dos dinossauros sobreviventes da cultura onde bambas só se destacavam se tivessem talento.
Um branco carioca “marrento”, mau humorado e porque não se dizer sem educação, imaginem como deveria para ele conviver no meio de negros abrutalhados, que resolviam, as questões no “rabo de arraia”?
Conheci o Marco Aurélio em meados dos anos 70, logo tive a primeira impressão: O branco chato e metido a besta.

A minha geração, mantinha o respeito pelos mais experientes, ai a minha proximidade com ele, até que um dia caí na besteira de lhe mostra a letra de um samba que eu havia composto.

Muito engraçado, Ele passou o olho na letra e amassou, momento em que parti pra dentro dele. eu com 1,70 65 kls, encarei aquele homenzarrão, porém eu Estranhei a sua postura, ele não reagiu e a turma do deixa disso apartou.

Dias depois ele me viu na rua. Parou seu carro e me pediu que subisse, eu pensando que a briga seria dentro do veículo, embarquei.

Tivemos uma longa conversa que terminou num boteco onde eu tomei uma com limão e ele um copo de leite.

Nessa época ele tinha uma barraca de frutas na região da Av. Brigadeiro Luiz Antonio.

Tive nesse dia uma da maiores aulas de vida e aprendizado dentre as muitas que tive nos mais de 50 anos neste universo do samba.

Ele me disse: poeta tome muito cuidado com aqueles “sambistas”, que te elogiarem e forem lhe  dar tapinhas nos ombros e se prepare para a multa!
 Ei me paga uma, ou me dá um trocado para condução dia 10 eu lhe pago.

Muito sério se posicionou:Sou meio estúpido e tem até quem me chama de louco, mas prefiro ser louco que falso.
E completou…
Ah…também preste bastante atenção quando mostrar um samba para algum outro compositor e ele disser que tem alguma coisa na letra ou melodia para melhorar, sabe porque? Filho feio não tem pai. Você é o pai da sua obra.

Daí por diante passamos a manter um bom nível de amizade e hoje sou saudoso e feliz por poder recordar esta história.

Acervo Pessoal


O amigo e grandes responsáveis pela maximização do Samba, o Radialista Moisés da Rocha, relembrou o amigo e o definiu: “Eu e o Jangada atuamos em várias peças do Plínio, eu trabalhei não apenas como ator mas também nos bastidores.
As rodas de Samba abriam os espetáculos e o bando era formado por Geraldo Filme,  Talismã,Toniquinho Batuqueiro, Zeca da Casa Verde entre outros…
 O Jangada para mim é tipo o Casquinha da Portela com sobrenome de gringo e cheio de Samba nas veias.
Fico feliz em poder recordar sobre ele e ver o seu respeitoso trabalho em prol do nosso samba, parabéns”


Osvaldinho da Cuíca,
um dos grandes nobres do samba e do Carnaval Paulistano relatou desta maneira o nobre sambista:
Jangada conviveu em minha casa, não costumava sorrir, sempre de cara fechada, o apelido Limão fazia boa referência a ele.
Eu conhece sua família e fizemos muitos sambas juntos.
Grandes recordações!
Dei de presente a ele, um chapéu panamá que ele usava com muito carinho.
Um grande sambista!

Um amigo de boas histórias é oSr.Davi, pai do Erivelton Gonçalves, vice presidente da Acadêmicos do Tatuapé ele mergulhou junto as suas memórias e relembrou com carinho a amizade entre Jangada e Armando da Mangueira:
Eles era um grande amigo do Armando da Mangueira, eu estava ao lado dele quando juntos fizeram um dos maiores sambas da nenê,lá no Bar do Ismael.
O Jangada escrevia a letra e o Armando fazia a melodia e na sequência eles brigavam, se xingavam, o Jangada começava a beber e escrever e o Armando saia para tomar um ar.
Quando voltava a conversa afinada e daí juntos fizeram esta maravilhosa obra: Palmares, Raízes da Liberdade ( Nenê de Vila Matilde – 1982)”
Ele detestava ser chamado de Marco Aurélio, o papo com ele era Jangada!

Afirma o Sr. Davi. O Ator, Escritor, Produtor e Sambista Haroldo Costa também nos contou um pouco sobre ele:
 “Eu o conhece nas coberturas carnavalescas, através dos trabalhos no Carnaval Carioca, uma pessoa muito legal e muito respeitada.
Ele merece este reconhecimento, pois fez muito tanto pelo carnaval do Rio quanto de São Paulo.
Fico honrado em participar e falar sobre esta grande personalidade.

O Filho do “Velho xamã da Vila Matilde” Armando da Mangueira, o compositor José Rifai Daguer, recordou de grandes momentos do nobre sambista:
“Eu conhece o Jangada na Mocidade Alegre, ele fez aquele baita samba sobre os 100 anos da Avenida Paulista e eu estava na final ao lado do meu pai, Armando da Mangueira.
Ele era colunista no Jornal Última hora quando foi concorrer nos Blocos Gaviões da Fiel, na época ele chegou a compor comigo, Osvaldinho da Cuíca, Cassius Clay, meu pai para o bloco mas o samba não fora escolhido.
Era uma pessoa de personalidade forte, em uma oportunidade na antiga quadra da Rosas de Ouro lá na região da Avenida Itaberaba, ele inscreveu um samba na escola e foi interpretar, na época só tinha cobra como Talismã,Tonicão, Zeca da Casa Verde entre outros…
Ele subiu no palco e começou a cantar o seu samba, a bateria desencontrou de sua voz e ele gritou: Para,Para, para esta merda!
A bateria continuou a tocar, ele desceu do palco e foi embora!
Na época foi a maior polêmica, mas este era ele!
Ele não saia de casa e junto do meu pai ele fez muita coisa, pena não haver filmagens!
Eu convivi em sua casa, na rua Cruzeiro ali na Casa Verde Baixa, que saudades, grande Jangada!
Ainda acompanhei o seu trabalho na Revista Placar e depois quando foi para o Rio de Janeiro, onde ganhou alguns sambas.


O cantor, amigo e parceiro de composição Silvio Modesto
nos relatou a importância que Jangada teve ao nosso samba:
Eu conhece as filhas e a família do Jangada, um grande parceiro!
Convivemos muito e gravamos grandes sambas.
Ele era genial, escrevia samba como ninguém, um baita letrista e eu vinha com a malandragem e colocava o molho.
Fizemos muitos sambas juntos!
O Jangada tocava mais ou menos um reco-reco, mas na escrita e na máquina de escrever ele era muito bom!
Ele reclamava de todo mundo, mas tinha um coração enorme!
Tive a oportunidade de trazer a São Paulo, o Partido em 5 e o Candeia que eram meus amigos no RJ, eu os convidei e vieram para fazer samba conosco nas 24 horas de Samba da Mocidade Alegre na década de 70.
Juntamos todos os bambas de São Paulo na época e foi muito samba!
Parabéns pelo seu trabalho e obrigado por recordar deste grande amigo.

Com estes registros afirmo,Jangada fora além de uma pessoa com tom crítico,ele fora perspicaz, altivo e navegou em mares além do seu tempo.
O tempo fora quem encarregou de soprar bons ventos em sua direção, para que a cada novo momento ele pudesse encontrar o seu porto seguro.
Este trabalho se iniciou a dois anos atrás, em uma conversa com o saudoso Dorinho Marques e hoje eu encerro com a certeza que os bons ventos que sopraram, levando para bem longe esta rica Jangada, possam assim me levar…para novos mares também a navegar….

“Todo o material é dedicado aos filhos Marco Aurélio Castro Guimarães, Carla Fabiana Castro Guimarães, e a sra. Lucia de Castro (esposa), a Sra. Rosa Maria Vicente (esposa), e a filha Bárbara Vicente Guimarães, a Sra.Dulcineia da Silva (esposa), aos filhos Marcelo da Silva Guimarães e Regina Célia da Silva Guimarães e a todos os netos (as) e gerações futuras que vão navegar neste hoje imenso mar”.

https://www.youtube.com/watch?v=KXx6vvXGFhU
Grupo Avan Samba – Quero Sambar, Quero Sorrir – Composição: Jangada/Silvio Modesto

Agora Jangada navega nos grandes e infinitos mares do céu,com seu chapéu,seu saco de leite, sua inteligência e com o interminável barulho de sua companheira a máquina de escrever.
Ponto Final!

Acervo Pessoal



Errata: Conforme pesquisado na Biblioteca Nacional online e no Dicionário Cravo Albin, ambos informam que o samba de 1990 e 1992 do GRES. Império Serrano foram compostos por Jangada.
Porém conforme confirmado pelo genial Jorginho do Império e pelo Mestre Dominguinhos do Estácio existiram dois Jangadas no Rio de Janeiro (um negro Policial e o Branco Jornalista) e de forma errônea atribuíram todos os trabalhos em nome do Marco Aurélio Jangada.
Reintero que o Sr. Marco Aurélio Jangada não fora o parceiro de Beto sem braço e não compôs estes sambas.
Fica o agradecimento especial ao Sr. Jorginho do Império e Dominguinhos do Estácio.

Diney Isidoro