Xinxim de Galinha – Reencontrando quem somos!

   A culinária é parte da vida e da identidade cultural de um povo.  Todos nós possuímos um repertório de saberes e sabores “degustativos” que é armazenado na memória e forma a base de nossa cultura material e imaterial. 

   Através da culinária (ou das culinárias) de um povo, é possível reconhecer e vivenciar tradições que muitas vezes não são percebidas de outra forma.

   A comida, e suas formas de preparo e consumo, não atuam apenas no âmbito coletivo. Também é memória individual e afetiva, residindo no imaginário de cada um de nós, associando-se aos sentidos – odor, visão, sabor e audição, nos remetendo a momentos múltiplos, felizes ou tristes, de nossas histórias de vida.

   As tradições culinárias relacionam-se diretamente com outros elementos da cultura de um povo, como a música, celebrações e festas tradicionais, ofícios, crenças e práticas religiosas.

 No Brasil, nossos antepassados vindos da Mãe África, contribuíram fortemente na formação do patrimônio material e imaterial culinário.

  Por volta do século 16 o repertório da alimentação cotidiana antes praticada nos locais de origem dos africanos trazidos ao Brasil, mesmo com as imensas limitações impostas pelo regime escravocrata, iniciou seu processo de  incorporação ao que depois viria ser chamada de “culinária brasileira”, ou melhor, “culinárias brasileiras”. Variações, adaptações, influências das culinárias indígenas e portuguesa, permanências de tradições, produtos e modos de preparo, fizeram chegar até o século 21 uma culinária saborosa, rica em histórias e marca distintiva da identidade brasileira.

   O Xinxim de Galinha é um dos pratos típicos da Culinária Afro-brasileira (mais especificamente,  afro-baiana) de maior singularidade. Trata-se de “simples” ensopado de frango com camarão seco e azeite de dendê. Mas, sabemos, é muito mais do que isso.

   Ele compõe o histórico “panteão” dos pratos servidos nas ruas, praças e largos nas grandes festas populares da Bahia, como no Caruru de Cosme e Damião, de 27 de Setembro, a Festa do Rio Vermelho (Iemanjá) e a Festa do Senhor do Bonfim (Oxalá), agregando valores, completando outros pratos e se apresentando também como prato único e autêntico de uma culinária que atravessou o Atlântico, resistiu e sobreviveu a todas as tentativas de apagamento da cultura do povo negro neste país.

   Xinxim é Comida de Santo (Comida Ritual do Candomblé) oferecida à grande e generosa Oxum, Deusa das águas doces, e também assinala sua identidade afro-baiana a partir dos mais típicos ingredientes da culinária desenvolvida no Recôncavo, entre o mar e o sertão: camarão seco, castanha de caju, amendoim e, obviamente,  azeite de dendê, pois, já sabemos, que “sem dendê, não tem axé”.

   O dendê é a liga maior da ancestralidade desse e de todos os demais pratos conhecidos como “comidas de azeite”. Trazido ao Brasil (Bahia) no século XVI, fazendo o mesmo trajeto de milhões de mulheres e homens desterrados e escravizados, aqui, com a maestria das nossas matriarcas negras, ocupou seu lugar nas cozinhas e ajudou a criar uma culinária incomparável. O consumo do dendê sempre representará um reencontro com a África, com nossas origens e nossa cultura ancestral.

   Comidas de azeite, como o prato que agora será apresentado nos permitem saber quem somos de onde viemos e por quais caminhos devemos seguir.

   Com ingredientes que podem ser encontrados em qualquer região do país e fácil de preparar, apresentamos o Xinxim de Galinha.


Ingredientes
1quilo de sobrecoxa de frango
½ xícara (chá) de amendoim torrado e moído
½ xícara (chá) de castanha de caju moída (opcional)
½ xícara (chá) de azeite de dendê
1 colher (chá) de gengibre ralado
1 pitada de pimenta moída (pode ser pimenta do seu gosto)
150 gramas de camarão seco, descascado e moído
1 pimentão verde picado
1 tomate grande picado
1 limão
2 cebolas grandes picadas ou raladas
2 dentes de alho amassados
½ maço de coentro picado
1 xícara (chá) de leite de coco
Sal a gosto.


Modo de preparo
Tempere o frango com 3 dentes de alho picados, 1 suco de limão. Deixe marinando por 5 minutos, retire o frango e reserve a água para usar posteriormente. Em outra panela refogue a cebola, depois acrescente os tomates picados, os pimentões, o gengibre, o fundo negro (a castanha de caju, o amendoim, o camarão seco triturado). Coloque a pimenta dedo-de-moça picada, adicione o frango, o leite de coco, o caldo de galinha que foi reservado no cozimento e tampe. Deixe até ferver. Por último, coloque o azeite de dendê e o coentro. Deixe cozinhando por mais 5 a 10 minutos, para o azeite de dendê apurar sabor ao prato. Pronto! Hora de se deliciar com este sabor.

Marcelo Reis, Chef de cozinha, nascido em Itabuna-BA, formou-se em gastronomia e se especializou na cozinha afro-brasileira e Africana. Em 2009 criou o Projeto Saberes e Sabores, onde trabalha com a preservação da cultura negra através da gastronomia. O Projeto teve o apoio da Secretaria da Cultura do Estado São Paulo, e assim se tornou, na cidade de Campinas, uma referências na culinária afro-brasileira, levando, não apenas o sabores, mas também o saberes de um povo que tem, através da culinária, uma história de resistência cultural e religiosa. Saiba mais sobre o Chef e sobre o Projeto é o espaço Saberes e Sabores em nossas redes sociais.


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Artigo de

Marcelo Reis