Mano Décio e sua viola no carnaval paulistano

Foto: acervo família Mano Décio da Viola

Décio Antônio Carlos nasceu em 14/07/1909 em Santo Amaro da Purificação no Recôncavo Baiano. Mas ainda cedo sua família foi para terras mineiras e depois para a a velha capital federal. Sua primeira morada foi o Morro da Mangueira junto com seus avós e irmãos.

O menino fugiu cedo de casa, foi vendedor de jornal na Praça XI onde conheceu os bambas do Estácio. Morou na rua, passou fome e viu a realidade da cidade grande, mas nunca deixou de trabalhar. Com seu carisma na venda dos jornais foi galgando degraus e chegou ter a sua própria banca. Morou também em Ramos, onde foi fundador da escola de samba Recreio de Ramos junto com o Maestro Heitor Vila Lobos.

Desfilou também pelo bloco Baianinhas de Osvaldo Cruz, que mais tarde se tornou a Portela. Migrando para Madureira já como chefe de armazém do cais do porto, integrou o Prazer da Serrinha, sendo diretor de harmonia e também compositor. E foi o seu samba-enredo (criação sua) que chegou na avenida em 1946, que o Seu Alfredo não quis cantar contrariando toda a escola que culminou mais tarde na fundação do Império Serrano, no qual entre sambas de terreiro e de enredo somados, Mano Décio é o maior compositor da história.

Após o desfile de 1963 descontente com algumas imposições de Mestre Fuleiro se afastou do Império, sendo convidado pelo Natal da Portela para integrar a ala dos compositores, onde ficou de 64 a 67. Retorna a sua escola em 1969 ao lado de Silas de Oliveira e Manoel Ferreira, compõe “Heróis da Liberdade” , tido como maior samba-enredo de todos os tempos. Depois da morte de Silas em 72, em parceria com Jorginho Pessanha disputou 73,74 e 79.

Mas vamos falar da influência de Mano Décio no samba de São Paulo: De 1968 a 1974 foi o responsável pelos sambas da escola paulistana Acadêmicos do Tatuapé, no qual é padrinho de batismo e desenvolve relação familiar com o saudoso Osvaldo Vilaça, o Mala. Mano Décio ainda trouxe Nina Rodrigues que ajudava elaborar os enredos para a a azul e branco do Tatuapé. Em Santos também contribuiu com o carnaval, por dez anos fez os sambas para a extinta Império do Samba, do saudoso Draúzio da Cruz e J.Muniz.

A ligação com o cais do porto carioca e santista era tão forte que havia um intercâmbio sambístico muito forte entre essas cidades nos anos 60/70. Suas composições foram gravadas por inúmeros sambistas e cantores da MPB. Mano Décio com Seu Elói, foram os grandes responsáveis por levar grandes nomes da Serrinha para trabalhar no cais do porto. Poucos sambistas do subúrbio tinham trânsito no Estácio que era um celeiro como Ismael, Bide, Armando Marçal (seu primo), Baiaco e Brancura. Compadre Délcio (forma que era conhecido), era considerado e respeitado entre todos os bambas.

Reza a lenda que na época difícil também vendeu sambas como muitos poetas da época faziam. Há uma grande possibilidade da obra “Se alguém perguntar por mim” imortalizado na voz de Zé Ketti ser de Mano Décio. Além da criação do samba-enredo ele que criou os lalaias e oooo’s.

Tocava divinamente sua viola, e em sua casa na rua hoje que leva seu nome hospedou o barracão da Império Serrano por 12 anos. Seus filhos todos pertenceram ao Império Serrano: Jorginho do Império foi passista da ala sente o drama, considerado com Jamelão e Careca os “Peles do Samba”, se tornou um dos grandes nomes do samba seguindo carteira artística como cantor de samba, além de ter pertencido a banda do Martinho da Vila.

Suas filhas Conceição e Sinhá também desfilavam, a última inclusive foi da bateria. Seu filho Amaro conhecido como Buzina foi mestre-sala do Império Serrano, na Império do Samba e também na Mocidade Alegre, também foi diretor de harmonia. O caçula Zé Paulo, compositor ganhador de estandarte de ouro em 2008 e 2011, também esteve por 10 anos em SP, emprestando seu talento na Nenê de Vila Matilde, esteve na ala jovem em 1985 autor do samba do carnaval que consagrou o desfile na Sapucaí.

O Grupo Samba Lá de Casa que depois virou Grupo Redenção gravou muitos sambas de Mano Décio. Ele lançou ainda no cenário fonográfico a sambista Dona Ivone Lara no LP o Sambão de Sargentelli com as músicas “Samba sem Cavaquinho” e “Agradeço a Deus”. Gravou três discos solo, no último apresenta a velha guarda do Império Serrano cantando sambas antológicos. Foi o responsável por trazer para a escola o Mestre Marçal que era de Ramos e implantou o tímpano (instrumento de orquestra) no samba.

Depois Mestre Marçal se consagrou na Portela, outro grande nome que está muito ligado ao Mano Décio é Jorginho Pessanha que era de Lucas e migrou para o Império, permanecendo até o fim da vida. Mas sem sombra de dúvidas sua maior alegria era a parceria com o amigo Silas de Oliveira, que foi introduzido no samba por ele e juntos fizeram obras arrematadoras e históricas.

Obrigado Mano Décio!

Artigo de

Thiago Praxedes