Documento Marco Aurélio Jangada – “Seu sobrenome é samba” – 2ª Parte

Foto: Acervo de Família – Jangada

A Boêmia fora a porta de entrada para ele em São Paulo, mas os seus artigos na imprensa já estavam mergulhados em uma dose de samba. Para começarmos esta segunda parte, temos que navegar através do som que pairava no ar devido ao atrito do aço junto aos batentes dos trilhos dos trens que chegavam a Parada de Lucas pelo ramal Saracuruna. Vamos curva após curva na Serra das Araras até chegar ao subúrbio carioca e lá entenderemos mais sobre esta veia pulsante de nosso homenageado.

“Salve, Xangô, meu Rei Senhor
Salve meu Orixá
Tem sete cores sua cor
Sete dias para a gente amar”
Canto de Xangô - Baden Powell e Vinicius de Moraes

Em 1966, neste solo fértil repleto de história, nostalgia e musicalidade, o nosso “criador de sonhos” se juntou ao lado de D’artang Alves Campos (Businfa), Asteclíneo Joaquim da Silva, Flogentino dos Santos (Morenito), Herlito Machado da Fonseca (Tolito), Elton Medeiros e tantos outros…

Junto da comunidade eles fomentaram o desejo da conquista e após diversas reuniões decidiram unir as escolas de Samba Aprendizes de Lucas e Unidos da Capela e formar uma agremiação forte o suficiente para disputar com as tradicionais Escolas de Samba do Rio de Janeiro.

Com as bênçãos da Cantora Elizeth Cardoso e Hermínio Bello de Carvalho que substituiu o poeta Vinicius de Moraes, nascerá a Unidos de Lucas, o “Galo de Ouro”. Nos dois primeiros anos a agremiação surpreendeu e cravou um clássico em sua galeria, no ano de 1968, com o enredo “História do Negro no Brasil – Sublime Pergaminho” samba dos compositores: Carlinhos Madrugada, Zeca Melodia e Nílton Russo, o Galo estremeceu a toda imprensa com um desfile magnífico e que conquistou o 5º Lugar e Jangada era o Diretor de Harmonia neste cortejo. A assinatura deste desfile ficou pelo segundo ano com o icônico Carnavalesco Clóvis Bornay.

"Uma voz na varanda do paço ecoou:
Meu Deus, Meu Deus
Está extinta a escravidão"
Unidos de Lucas - Sublime Pergaminho (1968)
Compositores: Carlinhos Madrugada, Zeca Melodia e Nílton Russo

Mas o talento acerca de Jangada e a sua certeira escrita o fazem se aproximar das composições e um dos seus grandes parceiros era o compositor Maneco. Ao lado dele, tua veia de compositor se torna latente escrevendo grandes sambas enredos, sambas de quadra e de meio de ano.

E na Capital Fluminense ele carimba seu nome na história e conquista sambas na União da Ilha, Estácio de Sá e Império Serrano e outras demais agremiações. Compondo não somente com Maneco mas com personalidades como: Beto sem Braço, Caruso, Djalma Branco, Dominguinhos do Estácio, Franco, Maurição, entre outros nomes.

A fria e concreta São Paulo era o contraste da sutileza da orla das praias cariocas, o poeta que se acostumou com a efervescência dos morros cariocas se depara com uma cidade no qual o samba era maltratado ao extremo, onde se primeiro oprimiam e depois perguntavam o motivo. Ali gera a indignação e empatia igual ao seu início nas andanças pela antiga Unidos da Vila Santa Tereza e Unidos da Vila São Luís (hoje Acadêmicos do Grande Rio) no qual o carnaval era na raça e no amor.

“No meu São Paulo, olê olê, era moda
Vamos na sé que hoje tem samba de roda”
Paulistano da Glória - Praça da Sé, Sua Lenda, Seu Passado, Seu Presente
Compositor: Geraldo Filme

Assim logo que ele desembarca em São Paulo e se instala no Edifício Redondo, o seu elo de ligação com as “Quebradas do mundaréu” e o místico Plínio Marcos preenchem a lacuna deixada pelos batuques dos morros no qual ele sentia falta, e claro que o mundo do samba o receberia, pois naquele momento o seu talento e sua capacidade de se expressar era totalmente importante para fincar bandeiras perante um processo agravante no qual a Ditadura impunha aos sambistas das noites madrigais.

Estas conexões feitas pelo amigo Plínio o colocam em sintonia com Evaristo de Carvalho e Moraes Sarmento duas figuras importantes para oficialização do festejo de momo na cidade. E que acaba refletindo em sua participação a pedido do então Prefeito Faria Lima para a confecção do primeiro regulamento oficial da Folia Paulistana no qual Jangada se baseia nos moldes dos festejos cariocas para construção de tal documento, este processo encerra o romantismo dos cordões carnavalescos (1968 -1972) e insere as escolas de samba em outro patamar. Era o carnaval ganhando forma!

Plínio Marcos que tinha um trânsito livre nas rodas de samba e total destaque no cenário nacional, olhava para Jangada como um aliado em defesa do samba paulista e rapidamente o leva para os palcos do Teatro,utilizando toda a musicalidade como pano de fundo, o amigo o traz a frente na peça “Jesus Homem” e “Balbina de Iansã” no qual Jangada empresta seu talento compondo a sua trilha sonora.

Ali ele é levado de encontro aos sambistas da mais alta patente como: Geraldo Filme, Silvio Modesto, Talismã, Toniquinho Batuqueiro, Zeca da Casa Verde, Zezinho do Morro e diversos músicos que como constelações iluminavam o candeeiro de sabedoria desta cidade fria. E um dos defensores do samba, o Sr. Flávio César o leva para conhecer os terreiros e o arrasta para Nenê de Vila Matilde, Estrela Brilhante, Camisa Verde e Branco mas ele fica vidrado na Madrinha Eunice e na Lavapés.

“O sábio Xamã, Consultou Tupã
Temendo o porvir
Soube que a vida é carnaval
Um alegre vendaval
Para os que sabem sorrir”
Nenê de Vila Matilde 1979 - Treze Rei Patuá (Armando da Mangueira e Jangada)

A proximidade com o universo do samba paulistano, faz com que Jangada se sinta perto do que vivenciará nas noites cariocas e logo ele se mistura entre os sambistas e começa a frequentar as quadras e terreiros, no final da década de 70, o velho xamã Armando da Mangueira se torna o seu parceiro de composição e ele começa a sua trajetória de conquistas em diversas agremiações.

“Olha o tombo
É SAMBA DE CONGA E TEM DENDÊ
CHEGOU NOVO QUILOMBO E SEU NOME É NENÊ”
Nenê de Vila Matilde 1982 - Palmares, Raiz da Liberdade(Armando da Mangueira e Jangada)

Esta ponte aérea feita por ele trouxe muitas parcerias e alegrias na bagagem e o resultado foi o envolvimento cada vez maior com diversas escolas do Carnaval Paulistano, mas seu cordão umbilical se vinculou a Madrinha Eunice e nas ruas que circundavam a Lavapés, ali ele ajudou de diversas maneiras a colocar o carnaval na rua.

Este amor pelo samba o fez participar de diversas outras escolas por aqui e mesmo quando ele de maneira amarga criticou a festa, ali se via mais a tristeza pelo resultado de suas agremiações cariocas do que pelo trabalho que ele fazia por aqui.
O seu maior desejo era que ambos caminhassem no mesmo patamar! Que tivessem visibilidade e mídia suficiente para que se quebrasse o estigma de Túmulo do samba imposto pelo poetinha Vinícius de Moraes.

Assim como quem olhava para o infinito, desejando prever o futuro, ele apaga mais um cigarro, guarda sua caixa de fósforo no bolso e espera as lantejoulas salpicar pelo ar para o início de mais um carnaval.

Na próxima semana, a terceira parte deste maravilhoso material sobre Marco Aurélio Jangada, eu espero vocês.

Compartilhem com todos em nome do samba paulista!

Axé!!!

Fonte: biblioteca nacional digital, acervo da familia.

Artigo de

Diney Isidoro