Plínio Marcos e nossas Quebradas do Mundaréu – parte 2

O samba é a forma da gente minha falar dos seus mais ternos
sentimentos. E é nesse embalo que eu vou. Vou contar do samba da
Pauliceia e de sua gente, que é do tamanho do mundo.

Plínio Marcos – Nas Quebradas do Mundaréu
Arquivo Plínio Marcos
"Mas que linda manhã
Bom dia, meu dia
Acontece que estou tão sozinho
Vou procurar por ai, Maria"
Zeca da Casa Verde - Linda manhã

Depois de escrever a primeira parte deste texto, eu passei longas horas de reflexão. Assim como uma velha locomotiva às 18 horas indo em direção a antiga Praça Roosevelt, lotada e sem pressa nenhuma de chegar, estava eu em frente ao computador como se ela fosse aquela velha máquina de datilografia. O ato de construir ou melhor mapear a trajetória deste que viveu em palafitas por boa parte de sua vida, não é uma missão fácil.

Ainda novo lá na Baixada Santista, o som do couro fervendo nos antigos carnavais e as multidões que se amontoavam para curtir os “banhos da doroteia”, não se desprendia de sua memória.

“Não era mole o carnaval na Baixada Santista. Começava muito antes dos três dias. Primeiro eram as batalhas de confete. Era lenha pura. Uma em cada bairro. E não era um desfile de araque com meia dúzia de crioulos batendo no couro do falecido. E depois vinha o desfile da Doroteia. E o desfile dos blocos.” “Quem viu, viu. Quem não viu não vê mais. É uma pena.” “Não era mole botar Carnaval na rua no tempo do Mestre Zagaia. A polícia acabava com os pagodes na base do chanfralho”.

Estas recordações que permeavam a sua mente, lhe serviram como alicerce para que pudesse construir, criar os seus novos trabalhos. As noites madrigais se tornaram um deleite para quem nutria sua criatividade através de detalhes e logo os botequins se tornam seu maior reduto. Por estas andanças e o seu sucesso com o personagem “Vitório” que ele vivia na novela “Beto Rockfeller” lhe deram o status de “astro”, mas o que ele queria mesmo era estar no meio do povo e o teatro sempre foi a sua porta.

Anos antes, em 1964, ele escreveu a peça “Nossa Gente, Nossa Música”, realizado pelo Grupo Quilombo, dirigido por Dalmo Ferreira, no Teatro de Arena. Logo, ele se torna um dos maiores defensores daqueles que brigavam dias após dias por voz, ele sem medo vai a público e nas rádios e meios televisivos defende com unhas e dentes o samba paulista. A rápida identificação com os batuqueiros do lugar veio graças a amizade que ele cultiva com o também boêmio Marco Aurélio Jangada, malandro carioca que nos seus mais de 1,90 de altura, traz tatuado no peito o samba como bandeira.

Logo este contato lhe apresenta outros grandes nomes deste vasto universo e assim Plínio Marcos, consolida seu nome entre os bambas oriundos do Largo da Banana e dos quilombos desta cidade e entra em cartaz no Teatro com: Balbina de Iansã, Jesus Homem, Plínio Marcos e os Pagodeiros e Humor Grosso e Maldito das Quebradas do Mundaréu, Deixa Pra Mim que eu Engrosso.
Rapidamente, ele desperta a atenção da mídia e da imprensa e os pagodeiros do lugar ganham vozes: Geraldo Filme,Jangada, Talismã, Toniquinho Batuqueiro, Silvio Modesto, Zézinho do Banjo, Zeca da Casa Verde entre outros…

O Samba paulista com ele ganha alma, ganha brilho e ganha destaque e ele logo se envolve nas escolas de samba, se torna presente entre os bambas da pauliceia e seu nome se torna corriqueiro, onde tinha samba, tinha Plínio Marcos. Nos anos 70 ele junto de amigos da classe artística, fundam a Banda Bandalha que saía na quinta-feira da semana anterior ao carnaval e, também, no sábado de aleluia, e cujo ponto de partida era em frente ao Teatro de Arena, no Bar Redondo.

A década de 80 traz a derrocada de sua carreira, ainda sofrendo os reflexos das perseguições da ditadura, ele é cerceado, suas peças são proibidas e ele perde espaço na TV e na Crônica, logo ele volta a fazer o que ele chamava de profissão, a rua é seu maior palco e ele se veste de Camelo e volta a vender seus livros, de porta em porta e de bar em bar. No momento que ele descreve no programa da peça Madame Blavatsky, ele demonstra seu interesse por elementos místicos e as cartas do Tarot se tornam ao lado de sua esposa (Walderez de Barros), um dos seus maiores companheiros.

“O que o Tarô faz mesmo é ajudar no autoconhecimento.” palavras de Plínio.

Plínio escreveu para os grandes e pequenos jornais até o fim de sua vida, retratou cada particularidade e viveu com intensidade tudo aquilo que pode tocar, ator,circense, escritor, sambista, ele que fora Funileiro de profissão se tornou pai de Três filhos que seguiram cada um seu destino, carregando no peito o seu DNA.

Em 1999, sofreu um derrame cerebral que lhe deixou o lado esquerdo paralisado e incapacitando sua respiração sem o auxílio de aparelhos. Após sofrer um segundo derrame, no fim de outubro, foi internado no Instituto do Coração, em São Paulo, com infecção pulmonar. Faleceu dois dias após a internação, aos 64 anos de idade. Seu corpo foi cremado no Crematório da Vila Alpina e as cinzas jogadas no mar na Ponta da Praia, em Santos

Em 2008, a Escola de Samba X-9 de Santos, apresentou o enredo Plínio Marcos – Nas Quebradas do Mundaréu, em homenagem ao artista que foi grande incentivador do samba em Santos e São Paulo. Com esse desfile, sagrou-se campeã do carnaval santista.

“Camelô, ah!, isso eu sou bom. Vendo meus livros, dou autógrafos e prometo morrer logo para valorizar. Eu sou um escritor imortal, não da Academia Brasileira de Letras, mas porque não tenho onde cair morto.” Disse Plínio Marcos em Entrevista.

Se você olhar com carinho, para cada rua do centro de São Paulo, para cada vendedor, cada malandro, cada andarilho, cada pessoa, você verá um pequeno retrato de sua arte, de seu legado e de seu trabalho. Sim, ele fora um “Camelô dos Sonhos” e sua história jamais se apagará! Pois deste lado, ainda existem alguns que beberam da bendita fonte das Quebradas do Mundaréu e que andam ao lado dos pagodeiros do lugar.

Diney Isidoro