O mito da democracia racial


Arquivo Pessoal

Vamos começar dizendo que o debate sobre democracia sem a presença de pessoas pretas, não é democracia. Agora, e o mito da democracia racial quando aparece? Esse conceito foi criado para construir uma narrativa para o mantenimento do poder daqueles brancos escravocratas, que no pós – abolição vão precisar dos negros para o que chamamos de segunda escravidão, pois eles também serão os consumidores.

E o que tem a ver com o carnaval? Nós, mulheres pretas, passistas, somos o centro desse debate, já que é no carnaval que o mito da democracia racial se personifica. É o que já dizia Lélia Gonzales, há 40 anos atrás. Quando o Carnaval acontece somos as Rainhas, mas quando tudo acaba, somos as empregadas domésticas. O que não seria um problema, já que são essas mulheres que vão, como dizia Thereza Santos, cuidar dos seus maridos após a abolição, e serão os alicerces dessas famílias, pretas e periféricas.

No entanto, colocar todas as mulheres pretas num mesmo balaio, dizendo crer que todas são do carnaval, conferindo a elas apenas esse local como sendo aceitável, além de cruel, é uma ideologia racista, e que menospreza mulheres pretas do carnaval ou não. Essas que lutam para ascender socialmente, intelectualmente, mas que na sua grande maioria acabam inclusive, não querendo mais fazer parte dessa concepção ancestral que são as escolas de samba.

Certa vez, num evento em São Paulo, estava eu trabalhando. Ziraldo era o grande nome daquela Bienal do Livro, sempre simpático. Quando me viu, eu sorri, ele parou, me abraçou e disse: “Nossa, você parece aquelas mulheres que dançam no carnaval “. Fiquei até lisonjeada, e disse que de fato sou uma dessas mulheres, mas reparem num fato, o imaginário social diz para toda a sociedade que somos e sempre seremos somente isso. E pior, precisam nos lembrar disso.

Eles amam as mulheres pretas, mas não as querem em outros lugares, isso nos condicionou e ainda, mesmo que tenhamos conseguindo ultrapassar algumas barreiras, estamos longe do ideal. Por isso precisamos falar sobre isso, olhar para nossas histórias, e construir narrativas a partir dos nossos olhares.

E aí, vamos desconstruir esse mito?

Conto com vocês!

Lyllian Bragança