Tupy or not tupy, no carnaval de São Paulo você fala Guarani

   

Talvez algum professor de linguística que agora está lendo esse título pode ficar um pouco incomodado com a escolha das palavras, porém essas foram utilizadas para fazer uma referência ao famoso “Manifesto Antropófago”, de Oswald de Andrade e alguns artistas modernistas, e um outro motivo um pouco menos nobre, que é para conseguir fazer a rima – confesso!

Na coluna de hoje vou dissertar sobre a importância dos idiomas indígenas e sua aplicação no carnaval de São Paulo, mais especificamente em palavras que fazem referência à algum bairro, agremiação, ou espaços do samba. Antes de adentrar à listagem, convém falar resumidamente a língua que utilizaremos como base desse texto. O Macro-Tupi é um tronco linguístico que engloba diversas famílias linguísticas das populações indígenas sul-americanas, com destaque para o Tupi-Guarani, a maior, que por sua vez reúne inúmeros dialetos e idioma, como o Guarani, que além de ser falado no Brasil, é uma das línguas oficiais do Paraguai.

Feitas as considerações, vamos às palavras:

  • Anhembi: O sambódromo de São Paulo, Anhembi, tem seu nome como origem no Guarani “y-nhemby”, que significa “rio abaixo”. Aceita-se também que seria uma derivação do tupi antigo “anhumy”, que significa “rio das anhumas”.
  • Ipiranga: Berço de escolas como Imperador do Ipiranga e Acadêmicos do Ipiranga, o nome do bairro tem um significado bem simples, que é rio vermelho, e a palavra é oriunda de Ypiranga.
  • Itaquera: Sede da tradicional escola Leandro de Itaquera, possui alguns significados aceitos, como “pedra dura”, “pedra dormente”, “pedra velha” ou “o que já foi pedra”, em possível referência a uma pedreira abandonada que tinha na região.
  • Jabaquara: O famoso distrito da zona sul paulistana é o lar da Barroca Zona Sul e da atual quadra da Lavapés Pirata Negro, expressa “toca da fuga”, em provável alusão a quilombos que existiam naquela área. Admite-se também uma tradução mais direta, como “rocha” e “buraco”.
  • Mooca: O bairro de tradição italiana, da zona leste, da Mocidade Unida da Mooca e da Uirapuru da Mooca, carrega o dois possíveis sentidos, de ares amenos, secos ou sadios, ou ainda “fazer casa”, baseado em um conto, onde os índios ao verem os homens brancos teriam exclamado “MOO-OCA!”, que também pode ser entendido como “eles estão fazendo casas!”.
  • Tietê: O termo que dá origem a diversos lugares, como o famoso rio, a avenida marginal, e a estação do metrô, todos próximos à passarela do samba paulistana, possui diversos significados, porém os mais aceitos são “rio volumoso” ou “água verdadeira”, em referência ao seu grande volume.
  • Tucuruvi: Sentindo o puro ar da cantareira da zona norte, berço da Acadêmicos do Tucuruvi, seu nome vem das junções dos termos “tukura” e “oby”, e significa “gafanhoto verde”.

Muitos outras palavras poderiam integrar essa lista, e tive que restringir para o texto não ganhar mil páginas, como o bairro da zona leste Tatuapé, que o apresentador da Rede Globo Chico Pinheiro anualmente nos relembra do “caminho do tatu”. Esse que vos escreve, como filho de paraguaio, adorou fazer essa pesquisa para verificar a mescla entre carnaval, línguas indígenas, e o português nosso de cada dia, mostrando que o país e suas festas são muito mais que a mistura do Brasil com o Egito.

Redação Sampa