1995: Um Grito de Liberdade para a Torcida que Samba

reprodução: Tv Globo

O carnaval paulistano por décadas teve o seu próprio pentagrama, mas quis o destino que após 27 anos este ciclo fosse quebrado

Vamos descobrir?

Dedicado a memória do Intérprete Nilson Valentim e de tantos outros saudosos torcedores alvinegros

“Circo Marimbondo

Circo Marambaia

Eu cheguei de longe

Não me “atrapaia”

Circo Marimbondo – Milton Nascimento e Ronaldo Bastos

A cidade permanecia em intensa transformação, envolvida em um misto de poeira de canteiro de obras e a fumaça da poluição. O então prefeito Paulo Maluf sofria pressões por todos os lados e do outro lado, os paulistanos ainda sonhavam com o serviço de TV a Cabo recém lançado no país.

Nesta metrópole que não para, as luzes da ribalta se embaralhavam entre as propagandas espalhadas pelo centro, dando um toque de charme em uma cidade que ainda garoava às 16:00 horas. Grande Cidade Aquariana, que transborda amor em meio ao caos! Nos terreiros de bambas espalhados pela cidade, as quadras incendiavam a cada ensaio.

Dez escolas do Grupo Especial construíam passo a passo, alegorias e fantasias a fim de mostrar um belo espetáculo. Era o primeiro ano após a mudança para o Plano Real e as escolas prometiam gastos milionários para brigar pelo título. Claro que as conquistas dos últimos anos credenciaram uma nova disputa entre Camisa Verde e Branco e Rosas de Ouro, mas o destino estava fadado a mudar esta história.

Logo no pré-carnaval, mudanças significativas começavam a traçar o destino, Royce do Cavaco chegava a novata X9 Paulistana, (Edu do Rosas passou a ser o oficial da Roseira), Thobias retornava ao carro de som do Vai-Vai, Vaguinho estreava na Unidos do Peruche após bons anos no Rio de Janeiro e sem Juscelino, o Camisa Verde apostava no novato Birinha com 20 anos para manter o ciclo de conquistas.

As tradicionais Nenê de Vila Matilde e Mocidade Alegre queriam entrar na jogada e quebrar o jejum, na zona leste a taça não chegava há dez anos e no Bairro do Limão há quinze. O Vai-Vai queria apagar o resultado ruim do ano anterior e tirar a “poeira do ouro” que reluzia desde 1993 na sala de troféus. Na última hora, o público foi atrás dos ingressos e a expectativa era de avenida lotada, e isso se confirmou.

No desfile, Imperador do Ipiranga e Leandro de Itaquera ficaram abaixo da expectativa. Em um ano tão disputado, qualquer falha colocava todo trabalho à mercê. No “clube” das que poderiam almejar o título, o Camisa Verde e Branco e a Mocidade Alegre não conseguiram na pista, provar que estavam no páreo.

Já a Unidos do Peruche, que estava engasgada com o resultado do último ano, fez a sua sátira e clamou contra quem não deixa o samba, sambar! Mas não veio para tal. Se alguém saiu da disputa por detalhes, essa foi a Nenê de Vila Matilde. Uma briga por causa da abertura do cronômetro e um problema com o abre alas que travou, colocaram tudo a perder!

Então Gaviões da Fiel, Rosas de Ouro e Vai-Vai que fizeram desfiles de encher os olhos e empolgar a todos, foram aclamadas pela crítica como favoritas: Um sonho, um bicampeonato e o oitavo título. Nota a nota, a disputa foi acirrada e a cada dez, um grito de liberdade ecoou por todos os cantos. A cereja do bolo estava para o fim e no quesito fantasia veio a celebração, duas notas dez e uma injusta nota sete colocava o fim na hegemonia, estava quebrado o pentagrama do carnaval paulistano.

Uma escola de samba oriunda das vozes das arquibancadas ganhava o carnaval, logo ela que em 1990 decidiu abandonar o festejo de momo após o resultado oficial e meses depois, graças a uma reunião extraordinária solicitada por uma comissão que tinha: Ernesto Teixeira, Luiz Carlos Caldaroni, Carlos Tadeu Gomes (Miranda), Nestor  Cirino ( Biro Biro), Roberto Carlos Alves Borges, Marcia Amatucci e Denise Lais Lopes. Também a aceitação de trabalhos iniciados desde as gestões de Luiz Mezher (Magrão), Alex Simão Araújo e José Claudio de Moraes (Dentinho), acabaram culminando nesta vitória. Gestões estas que ajudaram a organizar a estrutura e por fim a este tabu.

Em cinco anos, a Gaviões da Fiel apresentou grandes desfiles, excelentes sambas e o resultado foi a conquista do primeiro título de sua história. Coube ao poeta Grego Yanny escrever o que foi além das fronteiras e entrou no seleto time de históricos sambas enredos do carnaval paulistano.

“Um Brinde ao Jubileu de Prata

Convido a massa, pra comemorar”

Compositor: Grego Yanni.

Agora eu peço que cada um dos queridos leitores, apertem o play neste vídeo abaixo, fechem os olhos e sintam a emoção nestas imagens raras:

https://youtu.be/AaZAY21llaw

Desde a Oficialização, apenas cinco escolas foram campeãs do carnaval paulistano: Camisa Verde e Branco, Mocidade Alegre, Nenê de Vila Matilde, Rosas de Ouro e Vai-Vai, este era o “pentagrama” do carnaval de São Paulo até 1995.

Obrigado! Nos vemos na próxima quinta-feira, recordando um grande desfile da Nenê de Vila Matilde.

Diney Isidoro