1992: A Independência em Azul e Rosa


Imagem: Reprodução Tv Globo


Depois de três anos, enfim a taça tinha um único dono e o Carnaval ganhava um samba  histórico

O silêncio pairava sobre a cidade de São Paulo, nos dias anteriores a mais um Carnaval  a cidade tentava resolver o seu caos urbano: problemas na Penitenciária do Carandiru, superlotação no transporte público e as temidas enchentes que assolavam a cidade,  a crise do aumento do IPTU que por consequência triplicou o índice de rejeição a Prefeita Luiza Erundina que por orientação não foi ver os desfiles,entre outros…
No meio de tantas situações adversas, um pedaço, um terreno de barro extremamente vermelho, às margens da marginal Tietê e do esquecido Córrego Anhembi, se ouvia ao longe as batidas dos martelos e a poeira da peroba rosa se unindo as armações de metal, uma obra ininterrupta desde a sua inauguração, ali pelo segundo ano consecutivo era o endereço da folia do povo paulistano.
Uma folia bem diferente das que se via nas avenidas São João e Tiradentes, mas que ainda lutava para manter o charme e criatividade daquela época.
Espalhado por diversas regiões, nos Barracões e embaixo de viadutos improvisados se construíam sonhos, por onde passava era fácil encontrar partes de uma alegoria em construção.
Na mídia, o samba clamava por respeito!
Pois pouco se dava espaço nos jornais sobre os desfiles, o artigo publicado em um dos grandes jornais da época cita: “Não tem como ficar em cima do muro, carnaval é a festa que se ama ou odeia,em São Paulo, dá empate!
Porém o povo deu a resposta a esta publicação, as bilheterias que começaram a vender os ingressos apenas no dia 20 de Fevereiro, já possuíam fila de espera desde o dia 18, e rapidamente se esgotaram.
A Liga, visando uma expressiva melhora no Carnaval, decidiu que não haveria rebaixamento e que as duas escolas do Grupo de Acesso subiriam, para compor um grupo de 12 escolas.
E claro para evidenciar a melhora, ela proporciona um curso para seus 30 jurados a fim de que o julgamento fosse mais coeso.
Nos dias que antecedem os desfiles, muita polêmica e expectativa paira pelo ar, a chegada do Carnavalesco Augusto Oliveira ao Camisa Verde e Branco e os altos gastos para conquista do título, mexiam com todas as co-irmãs.
No Rádio, os sambas enredos dominavam o dial, em quase todos os horários era possível ouvir uma das dez belas obras, muitos já estavam no gosto popular.
Como disse acima, dez agremiações almejavam a taça, cada uma sonhava em escrever seu nome na história, afinal de contas nos últimos dois anos, Camisa Verde e Branco e Rosas de Ouro dividiam o título.
A imensa avenida, aos poucos apequenava os sonhos, no dia do desfile, quem errasse menos tinha mais chance de chegar perto da conquista, a pista que tinha recebido uma bela pintura, enganava, igualmente ao forte vento e ao frio constante que congelava quem ficava parado.
Ainda se acostumando com a dimensão da pista, a maioria dos foliões ainda ziguezagueava, as fantasias na maioria leves facilitava e muito a compreensão, as alegorias tinham diversas dimensões em um período que tudo que tinha roda (pneu) era considerado alegoria e os números contabilizado nas transmissões mostram bem: 10, 12 alegorias.
A iluminação da pista era feita em pilares de ferro com quatro refletores espalhados, os abarrotados camarotes em ambos os lados dava o tom da animação,a imprensa na altura da pista repleta de cabos para cobrir o festejo.
Os jurados se posicionavam nas cabines de julgamento feitas de madeira quase próximas do folião e o recuo da bateria estava  a direita (lado da marginal) proporcionando um visual diferente do habitual.
Cada escola contava a sua história, a Colorado do Brás trouxe a realidade da comunidade de baixa renda, a  Rosas de Ouro mostrava a evolução de nossa Capital paulistana e exaltava suas riquezas, a Gaviões da Fiel mostrava a sua visão de Cidade Aquariana,as diversas raças e cores eram representadas na Unidos do Peruche, a Espada da Liberdade era a homenagem da Mocidade Alegre para o Jornal Estado de São Paulo,os sons dos batuques ecoavam na Leandro de Itaquera, a Barroca Zona Sul tradicional em seu verde e rosa, veio toda vestida de vermelho e Branco pedindo licença a Exú e cantando a Roma Negra e africana, em Verde e Branco o Camisa Verde tomava um banho de luz mostrando a simbologia lunar , a Luz divina conduzia o azul e branco da Nenê de Vila Matilde e a Vai-Vai colocava suas caravelas por mares nunca dantes navegados.
A poesia reinava a fio em diversos sambas enredos, recheados de beleza e lirismo.
A mesma qualidade ficava a cargo dos carros de som: Armando da Mangueira e Baby, Bernadete na Peruche,Carllão Maneiro na Morada, Ernesto Teixeira a frente da Gaviões da Fiel, Eliana de Lima retornando a Leandro de Itaquera, Serjão um dos destaques da Colorado do Brás, Royce do Cavaco pelo oitavo ano consecutivo na Roseira , Thru conduzindo a Barroca, Juscelino e Birinha no Camisa Verde e Branco e pelo sétimo ano, Thobias do Vai-Vai mostrava todo seu talento, estava no ápice da carreira.
Juntando os elementos, o que vimos foi a consagração do carnaval, desfiles interessantes e eternizados pela criatividade de cada Carnavalesco.
O trabalho do Carnavalesco Tito Arantes fez toda a diferença em um ano muito disputado, ele trouxe uma Roseira carregando os brasões da cidade e mostrando muito luxo e riqueza, mesmo com alguns problemas em fantasia, a escola junto do Camisa Verde e Branco, Nenê de Vila Matilde e Vai-Vai saíria credenciada ao título.
A apuração novamente acirrada aos poucos ia demonstrando sinais de um novo empate, porém nota a nota, as concorrentes foram caindo pelo caminho: Nenê, Camisa e Vai-vai.
Claro que com uma disputa tão forte teríamos atritos: o primeiro foi quando o Seu Nenê revoltado com uma nota baixa, rasgou as notas e paralisou a apuração, depois de muito papo a apuração voltou.
E alguns quesitos depois, foi a vez das duas escolas Camisa e Vai-Vai elevar o tom devido as notas do quesito fantasia dadas a Rosas de Ouro.
Mesmo com tanta reclamação inclusive posteriormente na Justiça, a Rosas de Ouro conquistou o seu Tricampeonato e transformou o seu samba enredo em hino da cidade.
Até hoje cantarolado por aí…

“Bom é Recordar
  Bom demais”

E na próxima Quinta Feira vamos falar sobre a quebra de Hegemonia, 27 anos para uma nova campeã.
Convido a todos.

Artigo de

Diney Isidoro