1986: O Futuro por trás de uma nota

integrantes da Bateria do Vai Vai

Como um julgamento mudou a história de nosso Carnaval.

Dia 30 de Janeiro de 1986, faltando poucos dias para os desfiles, uma comissão se reúne na avenida Brasil, no número 485, para decidir o futuro de nosso carnaval.

Naquele ano, o Governo de Jânio Quadros decidiu pela extinção da Paulistur, deixando os sambistas com um enorme problema para resolver. Sem definições de onde seriam os desfiles, até a avenida Paulista fora cogitada, mas sem tempo hábil para adaptações, acabaram desistindo da ideia.

A solução foi criar a COMOCAP (Comissão Organizadora do Carnaval Paulistano) para decidir como seriam os ajustes, para que as escolas colocassem o samba na avenida.

Lembra da reunião citada acima?

Pois bem, dias antes a Secretaria de Cultura firmou um acordo, sem licitação devido ao curto espaço de tempo, com a Habitacional e Hotelaria Respaldo Ltda, do, então, Grupo Castella, que decidiram investir uma alta cifra para bancar as custas dos desfiles.

A empresa, assim, receberia os lucros de bilheteria e consumo de alimentos e bebidas, que fossem vendidos no local. Logo após a reunião, ficou definido que a Avenida Tiradentes continuaria sendo o palco dos desfiles e como seriam transportados os sambistas.

Mas, Jânio Quadros se irritou com o fim do Baile da Cidade, organizado no Estádio do Pacaembu e destituiu todo o COMOCAP, dando plenos poderes para que, em cinco dias, o então Presidente da Anhembi Centro de Feiras e Congressos, o Sr. Epaminondas José da Cunha, resolvesse a falta de iluminação e decoração da avenida e definisse o local para a venda dos ingressos. 

Missão cumprida na ponta dos cascos.

Os desfiles, marcados por muita chuva, tiveram um bom público, até maior do que se esperava devido ao mal tempo e, as escolas, trouxeram para a avenida momentos marcantes, como a presença de João do Pulo desfilando e Boca Nervosa no Carro de som, pelo segundo ano, no Camisa Verde e Branco. Eliana de Lima e o Palhaço Arrelia, na bela homenagem ao Palhaço Benjamim de Oliveira, na Unidos do Peruche. Marcia Inaia, cantando na raça, na Imperador do Ipiranga. A Nenê tentava conquistar o Bi, e com um samba arisco, cantado por Armando da Mangueira. A Rosas de Ouro, com o luxo futurista e o samba composto por Royce do Cavaco e Grupo Balance. A Mocidade Alegre e seu bom samba e o Vai Vai vinha com um samba de refrão forte e marcante.

Mas o melhor estava guardado para a apuração, no dia 13 de Fevereiro de 1986 ás 11 horas da manhã com duas horas de atraso, a apuração foi iniciada no Ginásio do Pacaembú. 

O Clima apresentava variações de conformidade e instabilidade até que uma nota 9,2 no quesito Alegoria e mudou todo o cenário daquela apuração, o Presidente do Camisa Verde e Branco “Carlos Alberto Tobias” começou a se irritar já que o regulamento não permitia fracionamento de nota e a mesa demorava a se decidir sobre qual nota dar a escola, ele invadiu o espaço pegou a nota e rasgou, um sururu danado na mesa de apuração e logo a Policia militar veio a intervir.

Mas o ápice veio na sequência, assim que se reiniciou a apuração, o Jurado e Maestro Julio Medaglia aplica uma nota 5 no quesito Melodia para o Camisa Verde e Branco e a confusão tomou conta, inflamado por outros Presidentes a apuração foi encerrada entre corre corre e muito bate boca. 

Alguns Presidentes disseram que ele não tinha gabarito para julgar tal quesito e questionavam o julgamento do próprio e dentro do Banheiro do ginásio (Masculino , os diretores da Uesp e no Feminino os Presidentes das Escolas de samba), as reuniões aconteciam, e depois de duas horas e meia os presidentes: Rosas de Ouro, Colorado do brás, Camisa Verde e Branco, Imperador do Ipiranga, Barroca Zona Sul, Unidos do Peruche e Nenê de Vila Matilde apontaram todas as escolas como Campeãs, pois consideraram que o sigilo da apuração havia sido quebrado, já que jurados davam entrevistas a imprensa.

Maestro Júlio Medaglia

Júlio Medaglia até se defendeu dizendo que colocou a nota, porem ia aguardar o termino do desfile para definir julgamento final e que a Policia Militar retirou o envelope antes que ele pudesse ter feito a correção mas tudo foi em vão.

Desta confusão, Tobias anunciou que seria criado uma nova associação, e naquele dia nasceu o embrião da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo.

Dias depois os diretores da Uesp, apresentaram o resultado final a imprensa sagrando o Vai Vai como a grande campeã de 1986.

E assim se foi feita a história…

Axé para todos!

Diney Isidoro