A saudosa Maria de Lourdes.

A saudosa Maria de Lourdes

Caso já tenha lido meus últimos textos, sabe que sou uma grande apaixonada e defensora do carnaval de rua. Mas hoje, quero contar quem me passou esse amor.

Conheci o carnaval pela minha família, em especial, minha avó. Maria de Lourdes, assim como Rita Baiana, era amante do samba. Devota da Gaviões da Fiel e da Mangueira, mas que passou pela avenida usando o manto da Nenê de Vila Matilde. Por quê? Ninguém sabe, acredito que o amor que ela tinha pelo carnaval era maior que escola de samba.

E se o carnaval é uma festa sazonal, para Maria, era uma parte imutável da sua existência. Sua vida foi embalada pelos grandes nomes do samba: Arlindo Cruz, Dona Ivone Lara, Alcione, Clara Nunes. Em todas as reuniões familiares (e eram muitas), o repertório do samba raiz estava presente. 

Não deixo de citar, que como uma boa brasileira, minha vó amava futebol, torcedora roxa do Corinthians, acompanhava todos os jogos, sem falar na Copas do Mundo. Os jogos do Brasil eram celebrados com muito churrasco e roda de samba. Ela até tinha uma gaveta com os itens para os dias das partidas – camisa da seleção, bandeira, um tênis verde-amarelo, fogos de artifícios e alguns santos para mandar boas vibrações.

Todo ano ela assistia os desfiles e acompanhava as votações das campeãs. E a cada nota baixa dada alguma de suas escolas do coração, eram xingos e gritos por toda a casa.

Infelizmente, minha avó partiu em janeiro de 2009, um mês antes do carnaval. As festas cessaram, a Copa não teve mais sentido e o nosso samba morreu. 

Tinha apenas 11 anos quando tudo aconteceu, era muito próxima da minha vó. Passei anos renegando as coisas que ela amava, porque lembrar doía demais. Comecei a enxergar o Carnaval como uma festa boba; o futebol era algo inútil; o samba não significava mais nada. Acreditava que estava lidando bem com isso, mas na verdade eu estava fugindo do amor da minha vó.

Foram anos até entender que eu precisava me reconectar novamente com as coisas que ela amava e assim manter sua história viva. O samba voltou aos poucos para a minha vida. As Escolas voltaram a me emocionar com seus enredos. E o futebol também se fez presente de novo, mas admito, é difícil engolir a seleção depois de 2014.

Apesar de sentir saudades da minha avó todos os dias, e ficar triste porque ela não estará fisicamente presente em todos os maiores momentos da minha vida, sempre iremos compartilhar do nosso amor.

Por fim, decidi escrever esta quase carta de amor a minha avó. Eu posso passar os próximos 30 anos escrevendo sobre o carnaval, conhecer grandes sambistas e criadores dessa festa, mas jamais alguém será tão influente no samba para mim, como Dona Maria Lourdes. E espero que o fator hereditário esteja ao meu lado, e transforme minha carne em samba assim como a dela.

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Redação Sampa