Quem é você, Peruche?

Ao se deparar você, caro leitor, com tal questionamento, creio eu que seus pensamentos o remeterão para as conexões mais próximas possíveis ao samba paulistano, no caso o Parque Peruche e a escola de samba que carrega seu nome, Unidos do Peruche. 

E não haveria de ser diferente, convenhamos.

Seguindo uma ordem cronológica, a primeira possibilidade já mencionada seria a lembrança do Parque Peruche. O famoso bairro da zona norte de São Paulo, que integra o distrito da Casa Verde, foi fundado no ano de 1935, e está localizado a aproximadamente seis quilômetros da Praça da Sé, marco zero da cidade, e igual distância do centro financeiro do estado, a Avenida Paulista. Muito embora famoso pela sua parte musical, tem em seu território o nascimento de grandes personalidades brasileiras, como o bicampeão Mundial de Boxe Éder Jofre e Adhemar Ferreira da Silva, bicampeão olímpico do salto triplo. 

Prosseguindo, temos uma das mais famosas agremiações do carnaval paulistano, o Grêmio Recreativo Cultural Social Escola de Samba Unidos do Peruche, ou simplesmente Unidos do Peruche. Conhecida como  “A Filial do Samba”, foi fundada em 1956 e possui em seu pavilhão idênticas cores às da bandeira do Brasil, sendo uma das maiores campeãs, com 05 títulos (1957, 1962, 1965, 1966 e 1967). Não obstante seu início avassalador, e alguns bons resultados nos anos seguintes, possui como últimas grandes posições os vice-campeonatos dos anos de 1989 e 1990. Atualmente, disputa o acesso 2 da Liga SP.

Mas o foco desta coluna, hoje, não será nenhum dos dois temas acima citados, e sim daquele que dá nome ao bairro e, por consequência, à escola de samba: Francisco de Paula Peruche.

Dr. Paula Peruche, como ficou popularmente conhecido, foi um conceituado médico especializado em moléstia de crianças que viveu em São Paulo, e que recebeu grande notoriedade pela sua atuação no combate à pandemia da Gripe Espanhola, em meados dos anos de 1918. O médico, que teria se especializado e trabalhado em Paris antes de retornar ao Brasil, possuía residência distante da zona norte paulistana, morando na charmosa Avenida Paulista, com consultório próprio na Rua Líbero Badaró.

Durante o período de proliferação da influenza espanhola, utilizou corriqueiramente a imprensa para divulgar suas ideias e instruir a população paulistana sobre questões médicas e sanitárias, sendo suas principais matérias publicadas no jornal A Capital, dentre elas a “Tratamento pelo mercúrio”. Peruche defendeu a utilização do metal sublimado (cristalizado), em sua forma mais pura, como forma de prevenção e combate à propagação do vírus, especialmente em sua forma mais perigosa, a pneumônica. O processo foi identificado como “mercurialização”

Conseguindo proveitosos resultados, inclusive curando algumas pessoas contaminadas pelo vírus, não tardou a ganhar fama dentro da comunidade médica e até mesmo dentre os populares, que o escreviam inúmeras cartas de agradecimento, bem como se valiam de notas em jornais, um inclusive chegando a publicar versos de gratidão pelo trabalho do Dr. Peruche. O texto a seguir veiculado no “O Estado de S. Paulo”, em 10/11/1918:

Você quer não ter Gripe? – Venha cá…

O Licor de Van Swieten vá tomar,

Dez gotas n’água fria: veja lá,

A farmácia está ali: entre, comprar…

A Espanhola, eu garanto, não terá,

Faça isto no almoço e no jantar,

Espalhe a todo o Povo, corra, vá,

Rouco estou de dizer e aconselhar!…

Foi o dr. Peruche que acertou:

Não há outro remédio pra Espanhola…

Qual Barreto, Barreto sempre errou!

Agora que o Prefeito diz ter pão,

E, em lugar de o baixar, – Já dá de esmola,

Só tenho a receitar: – Água e sabão!…

Em tempos difíceis como os atuais, em que a quarentena prevalece e ainda não se encontrou uma efetiva cura para a pandemia deste século, que a passagem do Dr. Peruche nos traga uma mensagem de fé e esperança que tempos melhores virão, tanto para nós enquanto sociedade, para o tradicional bairro de 85 anos, bem como para a nossa querida Filial do Samba, que consiga em breve resgatar seus anos de glória.

Conheça seu bairro, conheça sua história. E viva o samba!

Imagem: o Imperador 1919 reprodução: Luciano Vicioni

Derlys Acosta