Os Barões em Verde e Branco

 

“A saga do romance de Melo Palheta e da Madame Dorvilliers foi cantada na avenida Tiradentes em 1990. Através de uma sátira muito criativa, você lembra? Bora Mergulhar nesta história”

Texto especial para o amigo leitor: Fagner Mouzart

 

É Campeão! É Campeão! O Grito ainda ecoava sobre as paredes bicolores da Rua James Holland, 663. A vitória de 1989 fora algo primoroso, perto do investimento pesado das co-irmãs, a escola ganhou com talento e samba no pé. Com o vento forte batendo pela janela, os ajustes para o próximo carnaval já começava.

Escolhas e mais escolhas, diversos temas sobre a mesa. Com um time dos melhores e a sincronia entre os quadros da escola, o processo de trabalho ficava mais ágil, ensinamento deixado como herança por Dona Sinhá e Inocêncio Mulata.

Enfim, o tema fora escolhido: “Dos Barões do Café a Sarney, onde foi que eu errei?”

Um enredo que conta desde a chegada do café ao Brasil antes da proibição de Maomé, que dizia que o fruto deixava as pessoas mais espertas, o enriquecimento e transformações que a sociedade teve com a chegada do fruto e ressalta ainda todo reflexo que o fruto deixava em nosso solo, do auge ao declínio, e claro, criticava o momento do país.

Eliminatórias acirradas, sambas de alta patente. Mas samba enredo naqueles tempos só ganhava um, e o escolhido fora dos compositores: Luis Carlos Xuxu e Grego. Com refrões cobertos de ironia e com uma letra cheia de malandragem a escola mostrava as suas cartas. Ele logo caiu na boca do povo… Tudo pronto!

Mas eis que o golpe mais duro acertou em cheio os corações da casa, logo toda aquela euforia era substituída por uma batida oca, profunda, tristonha de um surdo. Capaz de levar às lágrimas até os torcedores rivais!

Logo toda energia emanada sobre aquele terreiro, se tornava uma despedida solene e profunda, nas vésperas de mais um Carnaval, Carlos Alberto Tobias o “Baobá da Barra Funda” partiu para o infinito, deixando uma imensa lacuna.

A responsabilidade recai sobre a Família Tobias, principalmente em Magali dos Santos e Simone Tobias, mas elas estavam bem amparadas e seguraram a responsabilidade de conduzir o manto e o legado, fortalecendo o espírito e a alma.

A luta era não apenas para manter o título, mas sim para manter um legado vivo, a concorrência era enorme pois as altas cifras investidas pela Unidos do Peruche, a malandragem em se fazer carnaval da Nenê de Vila Matilde e Vai-Vai, o empreendedorismo e o futurismo da Rosas de Ouro e Mocidade Alegre eram a grande ferramenta de motivação para superar o desequilíbrio que esta partida inesperada deixou. 

No Carro de som, o jovem talento de Agnaldo Amaral e Juscelino disputavam espaço contra leões como: Amaro Nunes, Armando da Mangueira, Carlão Maneiro, Eliana de Lima, Ernesto Teixeira, Jadir, Royce do Cavaco, Thobias e Zé Maria.

A Bateria de Mestre Neno estava afiada ele assumirá após a saída de Mestre Divino para a Unidos do Peruche e colocou um tempero a mais… O verde que brilhava na íris dos olhos do carnavalesco Augusto Henrique Alves, o Gugu.

Era a mesma que brilhava entre plumas e paetês no barracão. A riqueza esperava o dia e o horário certo para reluzir com toda a comunidade, a expectativa da escola era mesmo debaixo de chuva, repetir o feito de 1989. A chuva que castigou todas as escolas se rendeu aos primeiros raios de sol e logo quando ele apontava na cabeceira da avenida Tiradentes, o prata e verde reluziam como se tivessem convidando a todos para festa.

Naquele momento toda a criatividade e talento dos carnavalescos que abrilhantaram  nosso carnaval por décadas era celebrado através da “última valsa”. Entre tortas e copos de café passado de mãos em mãos nas molhadas arquibancadas de madeira, o sorriso feliz da senhora que acompanhava pela primeira vez a sua escola ou cansaço do guarda que passou a noite debaixo de chuva e já beirava a exaustão, todos ali estavam para aplaudir cada passo dado.

Mesma energia compartilhada em uma apuração!

E o Camisa Verde assim o fez, sem medo, sem receios, sem amarras, desfilou e arrastou toda arquibancada após a sua última alegoria.

Com uma despedida, um boneco imenso do então presidente Sarney dava adeus ao militarismo, ao povo e ao novo e engravatado presidente.

Era o samba sendo porta voz, sendo a voz…

AQUI NÃO É TERRA DE CEGO PRA TER REI

EU NÃO ERREI, BYE, BYE, BYE, BYE, SARNEY

QUEM ACREDITA NESTE SOLO NÃO PARTIU

MOSTRA A SUA CARA MEU BRASIL

MOSTRA A SUA CARA MEU BRASIL.


Eis que a apuração reafirmou os pensamentos, uma apuração de ânimos exaltados, acalorada, com disputa ponto a ponto até que no quesito Comissão de Frente ela domina, toma a frente e lado a lado com a Rosas de Ouro ela ratifica:

“É proibido proibir
Lamento dizer não a Maomé
É proibido proibir
Queremos tomar Café”

Novamente Campeã, a luta e garra de Tobias venceu, a dor de não ter conseguido vencer em 1988 e homenagear a Dona Sinhá, enfim fora reparada com duas conquistas seguidas….

“Verde que te quero verde”

Na próxima semana recordaremos o polêmico Carnaval de 1986!

Aguardem…

Diney Isidoro