1988: Da Abolição a Consagração, o Asfalto sambou
















Acervo: Revista Sampa Digital



Em uma bela noite de 13 de Fevereiro de 1988, o carnaval de São Paulo dava o seu primeiro salto à modernidade. Mas, para chegarmos até esta data, muitas coisas aconteceram. O cenário era complicado e repleto de incertezas. As fortes chuvas que assolavam a população, ajudavam a alimentar a dúvida sobre mais um carnaval. Greves dos ferroviários e metroviários começaram a pipocar às vésperas da folia e encerraram apenas no dia do festejo de Momo. Os aumentos absurdos dos impostos tiravam o sono e a cada dia o brasileiro sofria um pouco mais.

O país vivia a mercê de uma inflação altíssima e o povo clamava pelas Diretas Já. A sociedade passava a se expressar em diversas esferas. E da mesma maneira, o Carnaval Paulistano começava a pedir mais atenção do Poder Público e da imprensa, que anos após anos, baseava-se em críticas e alimentava uma visão comparativa e bairrista entre Rio de Janeiro e São Paulo. Porém, na enorme comunidade negra, o sentimento era de celebração. Um pedido de liberdade e mais espaço, situação que ocorre até hoje.

No ano de Centenário da Abolição da Escravatura, as escolas de samba mostravam a sua cara e faziam ecoar pelos quatro cantos a sua voz. Como em um restaurante de fina estampa, o menu era repleto de uma infinidade de sambas, que são cantarolados até hoje. A entrada, com degustações interessantes, traziam homenagens para personalidades, como:: Jorge Amado, Paulo Machado de Carvalho, Osvaldo Sargentelli e suas mulatas. No buffet de grandes novidades, as transmissões dos desfiles foram divididas em duas emissoras: RTC-TV Cultura e Rede Globo. Ambas, fizeram um alto investimento para a época e atreladas a diversos patrocínios, um carnaval com direito a clipes das escolas nos comerciais e tudo mais.
Detalhe: A TV Cultura estava completando dez carnavais e a Rede Globo caminhava para sua segunda transmissão, ao vivo, em São Paulo… Outros tempos! Mas, se tratando de festança e samba, a safra era comparada aos melhores vinhos à mesa… uma maravilha!

A riqueza melódica empenhada em cada composição era um soneto aos ouvidos. Desde a interpretação de jovens como Eliana de Lima, Juscelino, Royce do Cavaco, Thobias e Zé Maria ao cantar do sábio carioca Jamelão, que estava no auge da sua vitalidade, mesmo aos 75 anos.
O ano de 1988 reservava muitas surpresas!

A obsessão midiática pelo nudismo tomava conta do imaginário dos brasileiros e o espelho eram as musas cariocas. Nas arquibancadas, o que se via era o primor da culinária brasileira. Famílias inteiras reunidas, muita fartura e muita comida, e, claro, uma boa xícara de café para esquentar a chuvosa madrugada. Na pista, desfiles memoráveis: Colorado do Brás e seu inesquecível “Catôpes do Milho Verde”,  Barroca Zona Sul e Unidos do Peruche cantando e celebrando a raça negra com os respectivos enredos “Nova Mente” e “Filhos de Mãe Preta”. A baianidade no sangue afro-itálico do Vai-Vai e os delírios e fantasias dos meninos do Tucuruvi se misturavam ao sonhos de tempos melhores da comunidade do Imperador do Ipiranga. Seja no rádio ou na televisão, a Rosas de Ouro cantava um dos maiores comunicadores deste país e a Mocidade Alegre trazia o cientista e poeta para sambar. Mostrando a galhardia da Zona Leste, a Nenê de Vila Matilde arrastava a avenida e com um “Convite para Amar”, o Camisa Verde e Branco mostrava as personalidades da noite paulistana.

Um carnaval que se encerrou, quase, às 9 horas da manhã, de um domingo al dente. Multidões acompanhavam cada folião muito além da faixa amarela e sambavam quase até a Praça dos Correios. As histórias, os momentos, ficaram enclausurados nas falhas do asfalto da Avenida Tiradentes. As buzinas foram silenciadas pelos apitos dos mestres de bateria e das eternas batucadas.
Neste jogo de luzes de néon, ainda podemos ouvir ecoar as vozes de Armando da Mangueira, Amaro Nunes, Chuveiro, Carlinho de Pilares e tantos outros sambistas e foliões que ajudaram a transformar 1988 no ano em que o asfalto sambou.

Axé!!!

Diney Isidoro